sexta-feira, 9 de julho de 2010

Talento é coisa de família - Entrevista com Gabriel Guedes

Por Juliano Nicoliello e Thaís Colen


      Filho do consagrado Beto Guedes, 58, e pai por duas vezes, Gabriel Guedes, 32, nos recebeu em seu recém lançado bar. O nome do bar é uma homenagem ao saudoso avô, Godofrêdo Guedes, conhecido também por Gegê. Além do talento genético, Gabriel herdou também a pasta de manuscritos originais de choros de Gegê, que foram tema do seu primeiro disco.
      Gabriel relembra as histórias e dificuldades que enfrentou no início de sua carreira, as bandas pelas quais passou durante os 18 anos de estrada, como se interessou por música e seus planos para 2010.

Quando você começou a se interessar por música?

Desde criança eu brincava com os instrumentos do meu pai lá em casa e sempre via tudo relacionado com música. Meu avô era músico também.
Qual foi seu primeiro instrumento?

O primeiro que eu identifiquei foi o violão e depois comecei apaixonar por guitarra. Eu arranho um pouquinho de piano, de bandolim e alguns instrumentos de corda.
Você fez algum curso de música?

Estudei violão um ano e meio na Fundação de Educação Artística e um ano na Pro Music. Na minha adolescência tocava guitarra e fiz um pouquinho de coral no Palácio das Artes. Sempre fui mais de ficar em casa mesmo, ia lá pegava um pouquinho a “manha” e estudava em casa.

Quais as dificuldades que você enfrentou no início da sua carreira?

Dificuldade? É tanta dificuldade, olha, tem dificuldade técnico-musical, tem de você não ser maduro e não saber bem o que vai querer e aquela dificuldade natural mesmo de todo mundo que começa tem. Apresentei em público pela primeira vez com 14 anos, daí pra frente tive algumas bandas e toquei em vários lugares. Em 2004 gravei um disco.

Quais foram essas bandas?

Minha primeira banda era uma banda de punk-rock chamada Ósmio. Eu na guitarra e agente tocava Ramones, Sex Pistols e The Clash. Essa banda durou um ano e meio. Depois tive algumas bandas de garagem, de rock dos anos 70, estilo Jimmy Hendrix. Depois uma banda de rock progressivo chamada Limbo. Nessa a gente tocava Gêneses, Yes e Pink Floyd. Nessa época, comecei a me interessar mais por música clássica e sou muito apaixonado desde que descobri a referência musical do nosso querido Johann Sebastian Bach.

Como foi a primeira oportunidade de se apresentar?

Sempre muito desfavorável. Sempre alguém levando vantagem ou você pagando pra tocar. Quando comecei a tocar eu fui muito explorado. A exigência era muito grande. É difícil até hoje.

Você participou do projeto Feira do Choro em 2009. Qual foi o repertório escolhido por vocês?

Bom, meu repertório de choro é basicamente de músicas do meu avô, Godofrêdo Guedes. Agente coloca Pixinguinha e Jacó do Bandolim, porque são músicas que o povo conhece e é importante conhecer e executar pra manter viva essa chama do chorinho.
Para você qual a importância desse evento para Minas Gerais?

É um projeto maravilhoso que tem um mérito gigantesco. Ele proporciona resgatar pessoas como Geraldinho Alvarenga e outros compositores ainda desconhecidos que mandam seus trabalhos. Assim como tem no choro, deveria ter em cada segmento musical diferente esse tipo de projeto.
Como surgiu a idéia de fazer o CD “Lembranças de Godofrêdo Guedes”?

Foi quando teve o primeiro boom do chorinho, acho que em 2002 ou 2003. Eu tenho uma pasta dos manuscritos originais dos choros do meu avô e pensei, poxa, o que eu podia fazer com essas partituras? Eu tinha um violão e troquei com um amigo meu por um bandolim, comecei a tirar os chorinhos e aí montei um grupo. A gente ficou tocando, em Belo Horizonte, durante um ano pra malhar as músicas na noite. Depois, com a ajuda de duas amigas que elaboraram o projeto pra mim, conseguimos o patrocínio do disco pela Lei de Incentivo a Cultura.

Esse é o primeiro, estou querendo gravar um disco autoral e paralelamente um disco de samba do meu avô no segundo semestre. Nos três primeiros meses um disco, nos três últimos o outro. Eu quero lançar no ano que vem.

Quais são suas influências musicais?

Eu sou apaixonado com música para orquestra, de Beethoven eu sou apaixonado à obra de Sebastian Bach. São o topo da construção da composição artística humana. Eu gosto muito de rock and roll. No fundo, no fundo eu sou roqueirão. Comecei escutando Beatles e Led Zeppeling. Porque o rock, ele dá um tesão na veia como nenhum outro estilo dá sabe? Já o gozo da música erudita é outro, talvez intelecto-sensorial ou espiritual. É outro tipo de visão.

Em Minas Gerais, o Clube da Esquina inteiro, em peso, sou apaixonado de cima pra baixo, de baixo pra cima. Conheço quase todas as músicas, porque você conhecer todas é difícil. Toninho, Tavinho, Bituca, nossa senhora, Lô, meu pai. E os letristas? Cada um mais maravilhoso que o outro. É outro estilo de fazer música, no ponto de vista do cotidiano mesmo.

Eu fiquei pensando em alguns lugarem que a música é mais industrializada, que a coisa vira um negócio. Eu acho que, as vezes, a música acontece por uma via mais mecânima mesmo. Já em Minas Gerais, as pessoas fazem essa música mais elaborada, mais bonita, mais séria mesmo. Eles tem um contato muito viceral, que talvez diferencie as melodias, as harmonias, as vezes meio esquisita, e é isso que eu acho que é o rico daqui.

Além de instrumentista, você é compositor?

As vezes eu demoro dois anos pra fazer uma música. Vejo muito músico falando que é compositor e eu acho que a pessoa mal sabe o que é um compositor de verdade. Me refiro a um Lô Borges, um Bach, um Beethoven, aí é uma outra coisa mais elaborada, mais top mesmo. Então eu acho que eu não sou compositor não. Acho que eu sou meio fazedor de música.

Como surgiu a idéia de abrir o bar Godofrêdo?

Antigamente a minha idéia era abrir um bar que se chamaria Johann Sebastian Bar. Uma homenagem mesmo, eu sou muito apaixonado pela música dele. Aí, derrepente, eu tive um insite espiritual e falei: Nó, tem que ser Godofrêdo.

Por: Juliano Nicoliello e Thaís Colen
O bar Godofrêdo fica na rua Paraizópolis, 738, no bairro Santa Tereza; e foi criado em parceria com Luciane Mendes (42), amiga e artista plástica. O ambiente do bar é charmoso, agradável e com uma música de excelente qualidade. Aberto de terça a domingo, de 18:00 às 00:00 horas com atrações musicais diversas.
Funcionamento:



Terça-feira: Piano bar, com Gabriel Guedes;
Quarta-feira: Trio de cordas com os músicos da orquestra sinfônica;
Quinta-feira: Dia de chorinho;
Sexta-feira: MPB, de Clube da Esquina a chorinho com guitarra e baixo;
Sábado: de MPB à Beatles;
Domingo: Piano bar, com Jamir.





Veja abaixo algumas fotos do Godofrêdo

Fotos: Thaís Colen

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Exemplo Independente – Bauxita, vocalista da banda Código B

Por Juliano Nicoliello e Thaís Colen

O cantor Bauxita, 30 de carreira, tem um currículo invejável. Fez 11 anos de canto lírico teve uma banda com Samuel Rosa do Skank. Foi convidado pra participar do Jota Quest, antes do Rogério Flausino. Já apresentou programa de TV e dividiu o palco com Ray Charles em seu show no Parque das Mangabeiras, em Belo Horizonte. Bauxita nos conta sobre o início de sua carreira, fala sobre as dificuldades, influências musicais e sobre os planos para a sua carreira.

Como você começou a se interessar por música?

Ouvindo meu pai nas viagens que fazíamos de ferias para a praia. Ele colocava fitas cassetes pra gente ouvir na estrada e cantava junto. Isso sempre me chamava à atenção pela excelente voz que meu pai tinha e tem até hoje. Ele foi e é o meu maior ídolo.

Como foi a reação da sua família quando você se decidiu pela carreira musical?

Quando realmente resolvi seguir carreira e abandonar os outros estudos, tive um puxão de orelha da família. Eles tinham receio deu me tornar um marginal, já que, na época, os músicos eram vistos dessa forma. Logo que eles viram que a coisa era séria e que eu tinha talento pra coisa, eles me apoiaram e me apóiam até hoje.

Quais as dificuldades você enfrentou no início da sua carreira musical?

No início era tudo difícil, não existiam instrumentos de qualidade no Brasil e os importados eram extremamente caros. Fora a dificuldade de se gravar, o tão sonhado LP. Os estúdios de gravação eram caros e nunca tinha horário vago. Muito diferente de hoje, onde você pode gravar dentro da sua própria casa. Além também das rádios que até hoje não apóiam ninguém independente, a não ser por dinheiro!!!

Qual foi a primeira chance que você teve de mostrar seu trabalho como músico?

A primeira porta que se abriu pra mim, foram as dos festivais, que na época eram a vitrine do novo músico. Participei de vários, o mais importante e que me marcou foi o Festival de bandas da rádio Antena 1. O mestre de cerimônia do evento era o grande comunicador da época, Dirceu Pereira. Minha banda na época ficou em sétimo lugar e até o sétimo participava da gravação do LP do festival, que nunca saiu!!!

Quais as suas influências musicais?

No começo só ouvia cantores internacionais, principalmente do Heavy Metal como Bruce Dickson do Iron Maiden, Ian Gilan do Deep Purple e muitos outros dessa praia. Não gostava muito da música nacional da época. Nada me agradava, muito menos os da música mineira, que só fui gostar muito tempo depois. Mesmo assim ainda tenho algumas restrições em relação à música mineira, aquela que todo mundo chama de musica de montanha.

Quantos álbuns você já gravou?

Já gravei muita coisa, desde participação em CDs de outros artistas, até CDs com bandas como: Sagrado Coração da Terra - O Grande Espírito (1994), Código B (2004), Código B - Seguindo em frente (2006) e Coletânea Código B (2009).

Você compõe suas músicas?

Sou mais interprete, não sou de compor muito. Já fiz duas letras para o CD do Código B Preciso te encontrar e Não posso mais te esquecer. Todas as letras, no meu caso, saíram porque eu estava triste e na fossa (risos). Só assim pra eu compor!!!
Banda Código B
Qual o processo de escolha das músicas de seu repertório?

Escolho as musicas através da emoção que ela me transmite ou pelo impacto que ela possa causar no show. Adoro desafios e por isso procuro sempre aquelas músicas que exigem de mim algo a mais.

Quais seus projetos e planos para 2010?

Estou com vários projetos em andamento. Tenho feito shows com alguns amigos, como o pessoal do Omeriah. Eles são uma banda de reggae bem legal. Nesse show tocamos muito Tim Maia, Jorge Benjor, entre outros. Um outro projeto chamado Rock Machine, com outros amigos. Tocamos muitos clássicos do bom e velho rock, tipo Led Zeppelin, AC/DC, Black Sabbath, Jimi Hendrix, etc. Quanto ao Código B, estamos preparando um novo material, com novas músicas, mas não tem previsão de lançamento.

“Carreira solo” está em seus planos?

Sempre esteve. Mesmo eu fazendo parte de banda, penso em fazer um trabalho meu de intérprete, com muito groove e pegada. Esse projeto “tá” bem encaminhado e breve teremos novidades.

O que você pensa da cena musical em Minas?

A cena é boa. Temos vários talentos espalhados pelo estado inteiro, mas falta incentivo e apoio dos grandes veículos da mídia. Eles ainda não abrem espaço sem o tal do “JABÁ”, que existe e está cada vez mais presente.

Você já passou por alguma situação inusitada?

Quando estava no programa Alterosa Esporte, fui fazer um show em uma cidade. Como de costume, recebemos todos os fãs no camarim após o show, e nesse dia havia um cara que se julgava íntimo meu e me deu um “Pedala Robinho” na cabeça. Quando me virei achando que seria alguém conhecido ou um amigo, vi que nunca tinha visto aquela figura e fiquei “p” da vida. Se não fosse a minha produção, a coisa ia acabar mal.
Qual a contribuição dos 11 anos de canto lírico na sua formação musical?

O canto Lírico é à base de todo canto. Se você quer cantar popular e manter a sua voz por muitos e muitos anos, tem que estudar canto lírico. Aliás, cantar é uma arte em que você estuda o tempo todo e não pode parar. Até hoje utilizo as técnicas do canto Lírico na minha arte. É fundamental você ter uma boa base de estudos de canto para que no futuro, você não venha ter problemas vocais.

Por: Juliano Nicoliello e Thaís Colen